Terça, 23 de janeiro de 2018, 16h11
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Opinião

É tão difícil entender?

Lava Jato: filme rodado em vários capítulos, com direito a pirotecnia e efeitos especiais, doses de drama e suspense

Falta o que para entender que o Brasil está sendo saqueado neste momento em proporções exponencialmente maiores do que as "mandadas" apuradas, processadas e julgadas pela força-arefa da operação que estrelou com o nome "Lava Jato"?

A referida operação, em parte, foi louvável e meritória de aplausos e reconhecimento, fazendo com que muitos peixes graúdos, temporariamente, fossem retirados dos seus espaçosos e luxuosos aquários, e fossem passar uma temporada em tanques apertados e sem requinte.

Embora, isso pouco resolva, pois, por si só, não devolve o que fora desviado para o fundo dos corais.

Os "pescadores" de "pecadores" pescaram bem menos do que diziam que pegariam, quase como conto de pescaria, deixaram muitos escaparem e deixaram o cardume de tubarões, mais carnívoros, incólume, e foram embora.

Sendo que, contudo, em consonância com a tradição, quando questionados do resultado da pescaria, só contaram vantagens, aumentando e deturpando a realidade, como, por exemplo, que pegaram um "tubarão branco", apesar de não terem provas, mas, com muita convicção quando desenhavam como teria sido isso.

A verdade é que o barco da força tarefa da operação "Lava Jato" virou, logo após os velhos predadores de sempre se reunirem, em um grande "pacto nacional", para virarem a embarcação, mais vorazes e implacáveis do que nunca, alimentando-se dos candangos de todos os recantos do oceano brasileiro, sem restrições quanto à idade, gênero ou se de couro ou não, simplesmente passaram a comer até chupar a espinha dorsal e cuspir os espinhos fora.

Deixando um pouco eufemismos e metáforas à parte, a mesma operação recebeu duras críticas por parte de setores locais e pela comunidade internacional, pela forte e latente percepção de seletividade e sensacionalismo, ora decidindo com caneta de pena, suave e com discrição e sem alardes, como foi no caso da absolvição da esposa de Eduardo Cunha, ora com ferro quente, ardente e com todas as trombas e pompas, tendo como caso mais caricato a condenação do ex-presidente Lula, já anunciada desde antes do processo começar, ou como alguns dizem, já com o roteiro e final traçado e definido anteriormente à longa-metragem começar a passar na televisão.

E o filme rodado em vários capítulos, com direito à pirotecnia e efeitos especiais, doses de drama e suspense, como ceva para atrair e fisgar a atenção de toda a gente, inclusive, com momentos de comédia para o público relaxar e morder a isca, acabou por iludir muitas pessoas de boa-fé, talvez os próprios protagonistas apresentados como os"mocinhos" do enredo, mediante o engodo de que estavam libertando o país das traças e das amarras da corrupção, como num passe de mágica, inerente à ficção.

Com relação ao juiz Sérgio Moro não descarto a possibilidade de ter sido motivado pelo pensamento mágico e ingênuo de representar o "bem", na luta contra o "mal", chegando a sentir-se com poderes equivalentes aos do superman, que, porém, só existem nos personagens dos quadrinhos, nos HQs, como Moro admite ser fissurado desde novinho.

Todavia, parece-me muito nítido que os tubarões perceberam o ponto vulnerável dele, creio não ser de natureza venal, e, sim, a vaidade, que é um dos sete pecados capitais, apesar de todo esforço dele em aparentar humildade, no que, entretanto, não conseguiu ser bem sucedido, quase como um pavão que tentou-se passar por uma codorna.

Nunca conseguiu esconder a satisfação, o gozo pessoal, de ter seu efêmero tempo de fama, que, no entanto, virará poeira cósmica logo depois da curva da atual quadra histórica, afora à predileção partidária, beirando ao proselitismo deixado transparecer, seja na postura adotada nas audiências, a depender de quem estivesse sendo ouvido ou interrogado, seja em eventos sociais, na companhia imprópria e descontraída de agentes políticos do campo pelo qual nutre simpatia, para não dizer engajamento, totalmente inadequada e inoportuna, para quem deveria ocupar-se de manter pelo menos a aparência de isenção e sobriedade.

Ele foi usado, talvez até sem má-fé, mas não há dúvidas de que foi feito de ventríloquo, junto dos moços procuradores da República, crentes de estarem travando a guerra narrada no Livro de Apocalipse, contra a "Besta", quando, sem perceberem, colaboraram diretamente para que, aos revés de três ou cinco porcento do valor total de contratos público-privados fossem pagos à título de propina, a mesma empresa estatal dita defendida por eles fizesse um acordo absurdamente prejudicial aos interesses dela, a Petrobrás, muitas vezes mais oneroso do que a Lava Jato recuperou de recursos desviados, tendo sido motivo de espanto para economistas do mundo inteiro, eis que a referida petrolífera entregou a fundos de investimento americanos nada mais nada menos do que de dez bilhões de dólares.

Sem que isso tenha sido o pior e maior assalto recente que ela sofreu, com o beneplácito das autoridades que não deram um pio diante desse disparate, tampouco os meninos de Curitiba, minha cidade natal.

A entrega dos poços e jazidas do pré-sal à base de preço de areia no deserto para as multinacionais é algo parecido com a caricatura dos portugueses que davam espelhos em troca de ouro para os indígenas brasileiros.

O congelamento dos gastos sociais, com a justificativa espúria e esfarrapada de que foram eles que quebraram o caixa, enquanto qualquer pessoa minimamente informada sabe que o mega esquema institucionalizado da dívida pública suga do orçamento geral da união em um ano mais do que cinquenta anos de bolsa-família, junto com o leilão que estão fazendo do patrimônio, para não dizer da soberania e da dignidade do nosso povo, é o maior atentado à Constituição de 1988, somente possível de ser consumado após o golpe que alçou ao governo federal dezenas de pessoas, desde o presidente até seus ministros, investigados e denunciados por crimes diversos.

E a fatura que se dispuseram a pagar, sem escrúpulos na negociata das suas almas, foi o que manteve-os no poder, mesmo depois de terem sido flagrados em áudio e imagem, de terem assessores recebendo, carregando e depois devolvendo mala de dinheiro à Polícia Federal, porém não sem antes gastar um pouquinho e ter a inimaginável ousadia de entregar a maleta faltando maços de cédulas, para ver, quem sabe, se passava batido.

Enfim, repito, não duvido das "boas intenções" dos jovens juristas "barriga-verdes". Só não tenho como deixar de constatar o óbvio, conforme com o tempo será cada vez mais assimilado, quando para trás olhado e visto o resultado perverso e destrutivo para economia e política causado por possibilitar que a máfia atual, perigosa e letal, dominasse Brasília, o Palácio da Presidência, o Congresso Nacional e revela-se como um tônico para alguns bandidos infiltrados no Judiciário, do tipo que se reúne com o réu um dia antes do julgamento, veste a toga e posiciona-se publicamente em defesa do dito cujo, até mesmo fora dos autos, perante as câmeras e os flashes, e no outro dia, senão no mesmo, encontram-se novamente, porém para comemorar o resultado.

Surreal, né!? Sim e não!

É apenas um dos efeitos colaterais da Lava Jato, do Impeachment e da indignação seletiva, protestando nas ruas e praças quando o litro de gasolina foi reajustado em valor inferior a três reais. No entanto, sem ver as mesmas pessoas demonstrando pública e contundente indignação contra os cerca de quinze aumentos consecutivos no último ano, ultrapassando em alguns lugares a cifra de quatro reais, ou em face da fatura de energia elétrica que mais se parece com parcelas de compras de jóias raras, em um país onde a matriz energética é das mais baratas e renováveis do mundo, água corrente.

Sem falar no preço das compras semanais que fazemos no mercado, equiparáveis no preço das compras mensais que fazíamos até pouco tempo atrás, dois anos no máximo, o dinheiro que sumiu da praça, enquanto um grupo empresarial de um ministro mato-grossense arremata de uma vez uma fazenda prestificada em dois bilhões e duzentos milhões de reais, além de receber autorização para abrir um Banco, para, provavelmente, se for autorizado a liberar crédito a pessoas físicas, via cheque especial ou cartão de crédito, cobrar o estratosférico índice de taxa de juros de quase quatrocentos porcento ao ano, sendo quase trinta porcento ao mês, deixando qualquer agiota no chinelo, fazendo do Arcanjo um contraventores de pequenas causas.

É tão difícil assim compreender o que está acontecendo?

PAULO LEMOS é advogado em Mato Grosso.

paulolemosadvocacia@gmail.com



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